Reflexão do dia 25 de abril
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Jack Alexander

Alcoólicos Anônimos

por Jack Alexander – Jornalista

A publicação do artigo "Alcoólicos Anônimos" pelo jornalista Jack Alexander, no número de março de 1941 do "Saturday Evening Post", representou um marco na história da Irmandade.

Abaixo o artigo na integra:

Em uma tarde, há algumas semanas, três homens estavam sentados à volta da cama de um paciente alcoólico, na ala de psicopatas do Hospital Geral da Filadélfia. O homem deitado, que era um completo estranho para os três, tinha aquele olhar desgastado e ligeiramente estúpido que os bebedores apresen-tam, enquanto estão se desintoxicando após uma bebedeira prolongada. Com exceção do contraste óbvio entre a bem cuidada aparência dos visitantes e a-quela do paciente, a única coisa importante a observar era o fato de que cada um deles já havia passado pelo mesmo processo de desintoxicação várias ve-zes. Eles eram membros de Alcoólicos Anônimos, um bando de ex bebedores problemas, que se dispuseram com satisfação a ajudar outros alcoólicos a vencer o hábito da bebida.

O homem na cama era um mecânico de profissão. Seus visitantes tinham estu-dado nas Universidades Princeton, Yale e Pensilvânia e eram profissionalmen-te: um vendedor, um advogado e um publicitário. Menos de um ano antes, um deles tinha estado nesta mesma ala do hospital, amarrado à cama. Um de seus companheiros tinha sido do tipo mais conhecido como "interno vaivém" de sanatórios. Mudou-se de uma instituição para outra, infernizando as equipes médicas das mais importantes instituições de tratamento de alcoólicos do país. O outro desperdiçou 20 anos de sua vida, fora dos muros de instituições, tor-nando a vida insuportável para ele mesmo, para sua família e seus patrões, bem como para diversos parentes bem intencionados que cometeram a temeridade de tentar intervir no problema.

A atmosfera da ala do hospital estava carregada com o cheiro de paraldeído, ou seja, um odor desagradável de coquetel enjoativo, cheirando como uma mistura de éter com álcool de que os hospitais lançam mão, ocasionalmente, com a finalidade de acalmar o bêbedo e aliviar suas tensões nervosas. Os vi-sitantes pareciam ignorar tal fato e também a atmosfera deprimente que está sempre presente mesmo nas mais bem cuidadas alas de psicopatas. Eles fu-maram e conversaram com o paciente, por cerca de 20 minutos e partiram após darem-lhe seus cartões de visita. Antes de sair, disseram ao homem deitado na cama que, se ele acreditasse gostar de rever qualquer um deles, bastaria uma chamada telefônica.

Também deixaram claro que estariam dispostos a deixar seus afazeres, ou levantar-se da cama no meio da noite, para atendê-lo prontamente, caso ele de fato estivesse querendo parar de beber. Os membros de Alcoólicos Anôni-mos não correm atrás, nem "paparicam" novo companheiro ingressante, mas ardiloso, visto que eles conhecem muito bem as manhas de um alcoólico, da mesma forma que um trapaceiro regenerado continua conhecendo a arte de iludir o próximo.

Nisto repousa grande parte da força de um movimento que, nos últimos 6 a-nos, trouxe a recuperação a cerca de 2.000 homens e mulheres, dos quais uma grande percentagem tido sido considerada sem remédio pela medicina. Médicos e sacerdotes - quer trabalhando em separado ou em conjunto - têm sempre conseguido recuperar alguns casos. Em alguns casos isolados, bebe-dores problemas têm encontrado métodos próprios de parar de beber. Mas as incursões na área do alcoolismo não têm apresentado resultado significativo e ele continua sendo um dos maiores problemas de saúde pública não resolvi-dos.

Sensível e desconfiado por natureza, o alcoólico gosta de ser deixado consigo mesmo, para resolver seu próprio quebra cabeças e possui um meio conveni-ente de ignorar a tragédia que inflige àqueles que o cercam. Ele se agarra de-sesperadamente à convicção de que, apesar de não ter sido capaz de controlar o álcool no passado, seria bem sucedido, de agora em diante, em tornar-se um bebedor controlado.

O alcoólico é um dos mais estranhos animais da medicina e pode ser ou não uma pessoa acentuadamente inteligente. Ele discute habilmente com profis-sionais e com parentes que tentam ajudá-lo e obtém uma maldosa satisfação com o fato de manipulá-los em uma discussão.

Não existe artimanha ou desculpa para beber de que um A.A., anteriormente na ativa, não tenha ouvido falar ou não tenha utilizado ele próprio para beber. Quando alguém, abordado, racionaliza seus motivos para se embriagar, eles o confrontam com meia dúzia de outros de sua própria experiência. Isto irrita o novo companheiro em potencial e o coloca na defensiva. Ele observa as roupas limpas e bem passadas, os rostos bem barbeados de seus interlocutores e os acusa de serem uns retrógrados privilegiados que não têm a mínima idéia do que seja lutar com o álcool.

Os AAs retrucam relatando suas próprias estórias: os uísques duplos, os co-nhaques, antes do café da manhã; o vago sentimento de desconforto que precede uma bebedeira prolongada; o despertar depois de uma bebedeira, sem conseguir se lembrar do que aconteceu nos últimos dias e o medo an-gustiante de possivelmente ter atropelado alguém com o seu carro.

Eles contam das garrafas de bebida escondidas atrás de quadros ou em qual-quer canto da casa, do porão ao sótão; sobre passar dias inteiros dentro de um cinema para afugentar a tentação de um trago; de sorrateiramente ausentar-se do escritório durante o dia, para tomar uma dose bem rápida a cada meia ho-ra. Contam sobre perdas de empregos e o roubo de dinheiro da bolsa de suas esposas; de colocar pimenta na bebida para torná-la mais forte; de tomar be-bidas amargas com sedativos, além de tomar perfume e loção para a barba; sobre ficar esperando por 10 minutos até que o botequim da vizinhança abra. Eles descrevem como suas mãos tremiam tanto, que não podiam levar o copo à boca sem derramar; de pôr a bebida dentro de uma caneca de cerveja para poder agarrá-la com as duas mãos e com mais firmeza, mesmo com o risco de quebrar os dentes incisivos; de amarrar uma ponta da toalha num copo e a outra no pescoço e com a outra mão tentar levar o copo à boca; falam de mãos tão trêmulas que pareciam querer se soltar dos braços e sair voando; de sentar-se em cima das mãos, por horas, para evitar que tudo isto acontecesse.

Esta e outras noções de vivência alcoólica são normalmente suficientes para convencer o alcoólico de que ele está falando com "irmãos de sangue". Um laço de afinidade, portanto, se estabelece, numa experiência que o médico, o reli-gioso ou o infortunado parente desconhecem. Com base nestas afinidades, os alcoólicos de A.A., que se dedicam à abordagem, dão a conhecer pouco a pouco os detalhes de um programa de vida que vem funcionando para eles e que pode funcionar para qualquer outro alcoólico. Os AAs não consideram dentro de seu alcance aqueles que já sofrem de problemas neurológicos. Mas, ao mesmo tempo, tomam todas as providências para que os ingressantes tenham toda assistência médica necessária.

Muitos médicos e suas equipes, de instituições através do país, estão agora in-dicando Alcoólicos Anônimos aos seus pacientes com problemas de bebida. Em algumas cidades, os tribunais e oficiais de justiça cooperam com os grupos locais. Os membros de A.A recebem os mesmos privilégios que os da equipe terapeuta, nas divisões de tratamento psicopático de algumas cidades. O Hos-pital Geral de Filadélfia é um deles. O Dr. John F. Stouffer, psiquiatra chefe, diz:

Os alcoólicos que temos aqui são, em sua maioria, aqueles que não podem ar-car com as despesas de um tratamento particular e, portanto a cooperação dos AAs é, sem a menor dúvida, a melhor coisa que lhes podemos oferecer. Mesmo dentre aqueles que ocasionalmente retornam aqui, observamos profundas mu-danças em suas personalidades. Dificilmente outros os reconheceriam.

O "Illinois Medical Journal", em um editorial de dezembro último, foi mais além do que o Dr. Stouffer, afirmando:

É sem dúvida um milagre quando uma pessoa que tenha estado por muitos a-nos, em maior ou menor proporção, sob a influência do álcool e em quem seus amigos tenham perdido toda a confiança, venha a sentar-se a noite inteira ao lado de um bêbado e a intervalos prescritos pelo médico administrar-lhe peque-nas doses de bebida sem que ele próprio tome uma só gota.

Isto é uma referência ao aspecto peculiar de aventuras das "Mil e Uma Noites", a que os AAs se dedicam. Freqüentemente isto implica sentar-se junto a uma pessoa intoxicada, participando intimamente de todas as suas atividades, uma vez que o impulso de jogar-se por uma janela parece ser uma idéia atraente para muitos alcoólicos, no momento de suas crises. Somente um alcoólico para imobilizá-lo e fazer isto transmitindo um misto de autoridade e simpatia.

Durante uma recente viagem ao Oeste e Meio Oeste, conversei com um grande número de membros AAs, como se autodenominam, e observei que são pes-soas incomumente calmas e tolerantes. De alguma forma, eles parecem mais bem-integrados entre si do que outros grupos de indivíduos não-alcoólicos. As suas transformações, passando de criadores de caso com a polícia, habituais comedores de restos de comida nos lixos e, em alguns casos, espancadores de esposas, foram sem dúvida surpreendentes. Em um dos jornais mais influentes do país soube que o editor-assistente e um repórter conhecido em todo o país eram AAs e tinham a mais completa confiança de seus superiores.

Em outra cidade, presenciei um juiz entregar em liberdade condicional um mo-torista, preso por dirigir embriagado, a um membro de A.A. Este, durante seus dias de bebedeira, destruiu diversos carros e teve sua própria licença de moto-rista suspensa. O juiz o conhecia e estava feliz em poder confiar nele. Um bri-lhante executivo de uma agência de propaganda contou que, dois anos atrás, estava na mendicância, dormindo debaixo do viaduto. Na época ele tinha um lugar favorito que dividia com outros vagabundos e, periodicamente, retorna ao local, para se certificar de que não está sonhando.

Em Akron, como em outros centros industriais, os grupos têm um forte contin-gente de membros que são trabalhadores braçais. No Clube Atlético de Cleve-land, almocei com cinco advogados, um contador, um engenheiro, três vendedores, um agente de seguros, um comprador, um barman, um sócio gerente de uma loja, um gerente de uma rede supermercados e um representante industrial. Eles eram membros de um comitê central que coordena os trabalho de nove grupos vizinhos. Cleveland, com mais de 450 membros, ó o maior dos centros de A.A. Em seguida os maiores estão situados em Chicago, Akron, Filadélfia, Los Angeles, Washington e New York, existindo, no total, grupos em cerca de 50 cidades e municípios.

Quando discutindo o seu trabalho, os AAs explicavam que sua recuperação de bêbados era em realidade o seu próprio "autosseguro". Afirmaram que a expe-riência dentro do grupo mostrou que, uma vez que um bebedor em recupera-ção reduz o ritmo de sua atividade de levar a sua mensagem a um alcoólico que ainda sofre, então existe maior possibilidade dele mesmo voltar a beber. Todos eles concordam em que não existe a personagem do ex-alcoólico. Cada alcoólico, ou seja, um indivíduo incapaz de beber normalmente será sempre um alcoólico até a sua morte, de forma semelhante a um diabético. A sua me-lhor expectativa é estacionar o processo da doença, utilizando a interrupção do ato de beber, como se fosse sua insulina. Pelo menos, é esta a afirmação dos AAs, que tende a ser confirmada pela opinião dos médicos envolvidos. Com raras exceções, todos afirmaram ter perdido todo seu desejo pelo álcool. Por ocasião da visita de amigos a suas residências, a maioria dos AAs serve bebidas alcoólicas a seus amigos e até mesmo vai a bares com companheiros que bebem. Os AAs somente bebem refrigerantes e café.

Um deles, um gerente de vendas, serve bebidas no bar durante a reunião anu-al de sua companhia em Atlantic City e, durante toda essa noite, leva partici-pantes para suas respectivas camas. Somente um número muito reduzido de alcoólicos em recuperação deixa de ter a certeza que, no exato minuto em que tomarem impensadamente o primeiro gole estará despertando uma compulsão descomunal e incontrolável em relação à bebida e de conseqüências desas-trosas. Um AA, que é um funcionário administrativo numa cidade do Leste, afirma que, apesar de não ter tomado uma única dose de bebida em três anos e meio, ainda passa apressadamente por bares, de modo a evitar a antiga compulsão; ele, no entanto, certamente é uma exceção. A ressaca dos dias tormentosos que afligiram um AA certamente é o único pesadelo remanescente. Nesse sonho ele se encontra no centro de um turbilhão, tentando freneticamente ocultar sua condição da comunidade. No entanto, até mesmo este sintoma desaparece, a curto prazo, na maioria dos casos. Surpreendentemente, o percentual, entre essas pessoas, que encontra emprego e trabalho, quando anteriormente haviam perdido todos seus empregos, em virtude da bebida, é da ordem de 90%.

Alcoólicos Anônimos declara que é de 100% a eficiência de seu programa, para bebedores não psicóticos que sinceramente desejam parar de beber. Os AAs acrescentam que o programa não trará resultados, em relação àqueles que a-penas querem poder parar de beber por temerem perder suas famílias ou seus empregos. Afirmam que o desejo objetivo deve ter como origem um interesse pessoal verdadeiramente esclarecido e iluminado; o iniciante deve querer livrar-se da bebida alcoólica para evitar a prisão ou morte prematura. Ele precisa es-tar totalmente exaurido da solidão social que cerca o bebedor descontrolado e deve querer pôr alguma ordem em sua vida desregrada.

Como é impossível desqualificar todos os candidatos que se apresentam, a por-centagem de recuperação não chega a 100%. De acordo com estimativas de A.A., cinqüenta por cento dos alcoólicos filiados recuperam-se quase imediata-mente; vinte e cinco por cento melhoram após uma dou duas recaídas e o restante permanece em dúvida. Este índice de sucesso é excepcionalmente elevado. Pela inexistência de dados estatísticos sobre curas através da medi-cina tradicional ou da religião, a estimativa é de que a recuperação por tais métodos não atinge mais do que dois ou três por cento.

Embora ainda seja muito cedo para afirmar que Alcoólicos Anônimos é a res-posta definitiva para o alcoolismo, os resultados obtidos em pouco tempo são impressionantes e têm recebido apoio promissor. John D. Rockefeller Jr. ajudou no custeio das despesas iniciais do movimento e procurou de todas as formas interessar outros cidadãos preeminentes no assunto.

A contribuição de Rockefeller foi muito pequena, atendendo aos pedidos insis-tentes dos fundadores de que o movimento fosse mantido em base voluntária e em regime não profissional. Não há organizadores assalariados, obrigações, administradores contratados e nenhum controle central. Nos grupos, os aluguéis de salas de reunião são pagos através de coleta feita durante as reuniões. Em pequenas comunidades, nem mesmo são feitas coletas porque as reuniões são realizadas em residências particulares. Um pequeno escritório no centro de New York atua meramente como central de informações. Não existe nenhum nome na porta e a correspondência é recebida anonimamente através de uma caixa postal. A única receita é a exatamente resultante da venda de um livro que descreve o trabalho de A.A. e é administrada pela Fundação Alcoólica, uma junta composta por três alcoólicos e quatro não alcoólicos.

Em Chicago, vinte e cinco médicos trabalham em estreita cooperação com Alco-ólicos Anônimos, contribuindo com seus serviços e encaminhando seus pró-prios pacientes alcoólicos para os grupos, atualmente cerca de 200. A mesma cooperação existe em Cleveland e, em menor escala, em outras cidades. Um médico, o Dr. W.D. Silkworth, da Cidade de New York, deu ao movimento seu primeiro encorajamento. No entanto, muitos médicos continuam incrédulos. O Dr. Foster Kennedy, um eminente neurologista de New York, provavelmente tinha em mente atingir alguns destes médicos, quando declarou, em uma reunião um ano atrás, que: "O propósito daqueles que estão envolvidos neste esforço contra o alcoolismo é elevado; seu sucesso tem sido considerável e eu acredito que a classe médica bem intencionada deveria dar-lhes apoio".

A ajuda ativa de dois médicos de boa vontade, Drs. A. W. Hammer e C. Dudley Saul, tem colaborado enormemente para que o grupo de Filadélfia seja um dos mais eficientes daqueles recentemente fundados. O movimento teve início em Filadélfia de um modo improvisado, no mês de fevereiro de 1940, quando um empresário que tinha ingressado no A.A. foi transferido de New York para a Filadélfia. Com receio de recair por não ter como ajudar alcoólicos, o recém chegado abordou três bebedores crônicos que freqüentavam estabele-cimentos da pior qualidade, na redondeza, e começou a trabalhar com eles. Conseguiu mantê-los sóbrios e o quarteto formado começou a investigar detalhadamente outros casos. Por volta de 15 de dezembro último, noventa e nove alcoólicos tinham se juntado a eles.

Destes, oitenta e seis conseguiram manter finalmente total abstinência, sendo que trinta e nove mantiveram-se abstêmios por um período variando de três a seis meses e vinte e cinco no intervalo de seis a dez meses. Cinco membros que se filiaram em outras cidades estavam sem beber por períodos variando de um a três anos.

A Cidade de Akron, que foi o berço do movimento, mantém o recorde interno de tempo de permanência em abstinência. De acordo com uma pesquisa re-cente, dois membros estão seguindo o programa de A.A. há cinco anos e meio; um pelo mesmo período, com uma recaída; três por três anos e meio, com uma recaída cada; um, por dois anos e meio e treze, por dois anos.

No passado, muitos dos membros de A.A. das cidades de Akron e Filadélfia não tinham conseguido abster-se de álcool por mais do que algumas semanas.

No Meio Oeste (dos EUA) o trabalho tem sido quase exclusivamente entre pes-soas que nunca foram internadas. O grupo de New York, que tem um núcleo semelhante dá uma atenção especial aos pacientes alcoólicos internados em instituições e tem conseguido resultados extraordinários. No verão de 1929, o grupo começou a trabalhar com alcoólicos internados no Hospital Estadual de Rockland em Orangeburg, que é um enorme sanatório para doentes mentais e recebe os alcoólicos sem expectativa de recuperação dos grandes centros populacionais. Com o estímulo do Dr. R.E. Blaisdell, o superintendente médico, um grupo foi formado dentro do hospital e as reuniões eram realizadas na sala de recreação. AAs de New York iam a Orangeburg para fazer palestras e, nas tarde de domingo, os pacientes eram levados em ônibus estaduais para o clube que o grupo de Manhattan alugava no lado Oeste.

Em primeiro de julho último, isto é, onze meses depois, registros mantidos no hospital demonstraram que, dos cinquenta e quatro pacientes entregues a Al-coólicos Anônimos, dezessete não tiveram nenhuma recaída e quatorze apenas uma. Dos restantes, nove voltaram a beber em suas comunidades de origem, doze voltaram ao hospital e dois não puderam ser localizados. O Dr. Blaisdell escreveu favoravelmente sobre o trabalho de A.A. ao departamento Estadual de Higiene mental e enalteceu-o oficialmente em seu último relatório anual.

Resultados ainda melhores foram obtidos em duas instituições públicas de New Jersey – Greystone Park e Overbrook que atraem pacientes de melhores con-dições econômicas e sociais do que os de Rockland, devido a sua proximidade a regiões mais prósperas. Em 2 anos, de sete pacientes que receberam alta da instituição de Greystone Park, cinco abstiveram-se de álcool por períodos de um a dois anos, de acordo com registro do A.A. Oito de dez pacientes de Overbrook que tiveram alta abstiveram-se de álcool por mais ou menos o mesmo período. Os outros tiveram uma ou diversas recaídas.

As autoridades não conseguem concordar no motivo pelo qual algumas pes-soas tornam-se alcoólicas. Alguns pensam que qualquer um pode "nascer alcoólico". Uma pessoa pode nascer, dizem eles, com uma predisposição hereditária ao alcoolismo, assim como outra pode nascer com uma vulnerabilidade à tuberculose. Os demais parecem depender do ambiente em que vivem, bem como sua experiência, embora uma teoria afirme que algumas pessoas são alérgicas ao álcool da mesma forma como outras sofrem de febre do feno e alergia a pólen. Apenas uma característica parece ser comum a todos os alcoólicos: imaturidade emocional. Estreitamente relacionada a isto existe a observação de que um número muito grande de alcoólicos inicia suas vidas como filhos únicos, filhos caçulas, único filho homem em uma família de mulheres ou única filha em uma família de meninos. Muitos têm estórias de precocidade infantil e eram crianças mimadas.

Frequentemente, a situação é complicada pela atmosfera familiar, onde um dos pais é indevidamente rigoroso e o outro superindulgente. Qualquer combi-nação desses fatores, acrescida de um divórcio ou dois, tende a produzir crianças neuróticas que estão indevidamente equipadas emocionalmente para encarar as dificuldades normais da vida adulta. Para escapar disso, alguns trabalham de forma exagerada, dedicando á suas atividades profissionais doze a quinze horas por dia, ou em esportes, ou em alguma atividade artística paralela. Outros encontram o que acreditam ser uma fuga prazerosa na bebida. A bebida exacerba seu autoconceito, encobre temporariamente qualquer sentimento de inferioridade social que possa ter. E passa a beber cada vez mais. Os amigos e a família se afastam e os patrões tornam-se intolerantes. O bebedor se afoga em ressentimentos e autopiedade. Ele se permite racionalizações infantis para justificar sua maneira de beber: tem trabalhado duro e merece relaxar; sua garganta dói de uma antiga operação de amídalas e um drinque aliviaria a dor; está com dor de cabeça; sua mulher não o entende; seus nervos estão à flor da pele; todo mundo está contra ele; e por aí afora. Inconscientemente se transforma em um auto-enganador crônico.

Sempre que ele está bebendo, diz a si mesmo e àqueles que se intrometem em seus assuntos que pode realmente tornar-se um bebedor controlado se assim o quiser. Para demonstrar sua força de vontade, fica várias semanas sem beber uma gota de álcool. Ele faz grande alarde em ir a seu bar favorito a determinada hora, a cada dia e ostensivamente ficar tomando leito aos goli-nhos ou um refrigerante sem se dar conta de que está incorrendo em um exibicionismo juvenil. Falsamente encorajado, ele volta à rotina de uma cerveja por dia e isto é mais uma vez o começo do fim. Cerveja leva inevitavelmente a mais cerveja e depois a bebidas fortes. Bebidas fortes conduzem a mais outra bebedeira monumental. Estranhamente, o gatilho que detona a explosão pode ser tanto uma vitória comercial como uma maré de má sorte. Um alcoólico não pode suportar nem a prosperidade nem a adversidade.

A vítima fica perplexa ao sair do nevoeiro alcoólico. Sem que ele se apercebes-se, aquilo que era um hábito tornou-se gradualmente uma obsessão. Depois de algum tempo, não precisa de racionalizações para justificar o primeiro drinque fatal. Tudo que ele sabe é que se sente inundado de desconforto ou de júbilo e, antes que perceba o que está acontecendo, está defronte do balcão do bar com um copo de uísque vazio à sua frente e uma sensação estimulante na garganta. Por algum ardil peculiar de sua mente, foi capaz de esquecer a dor intensa e o remorso causados pelas bebedeiras precedentes. Depois de muitas experiências deste tipo, o alcoólico começa a perceber que não se entende e fica imaginando por que sua força de vontade, que é eficaz em outras situações, não funciona em sua defesa contra o álcool. Ele pode seguir tentando derrotar sua obsessão e terminar em um sanatório. Ele pode desistir da luta, considerando-a sem esperanças, e tentar o suicídio. Ou pode procurar ajuda de terceiros.

Se apelar para os Alcoólicos Anônimos, ele é antes de mais nada ajudado a admitir que o álcool o derrotou e que tinha perdido o domínio sobre sua vida. Tendo atingido esse estado de humildade intelectual, recebe uma dose de re-ligiosidade no seu sentido mais amplo. Pede-se a ele que acredite em um Poder Superior a ele, ou que pelos menos mantenha a mente aberta a respeito do assunto, enquanto prossegue com o restante do programa. Qualquer conceito de Poder Superior é aceitável. Um cético ou agnóstico pode escolher seu próprio Ser Superior entre, por exemplo, o milagre do crescimento, uma árvore, o deslumbramento do homem face ao universo, a estrutura do átomo, ou meramente o infinito matemático. Qualquer que seja a forma de visualização do Poder Superior, o novato é ensinado e deve, a seu próprio modo, orar a esse Poder para que forças lhe sejam dadas.

Em seguida, ele faz uma espécie de inventário moral de si mesmo com o auxí-lio particular de outra pessoa, um de seus padrinhos de A.A., um religioso, um psiquiatra ou outra pessoa de seu agrado. Se ele assim o desejar e se isto vier a constituir-se alguma forma de alívio, pode levantar-se em uma reunião e relatar seus infortúnios, embora não seja obrigado a isto. Ele restitui o que eventualmente tenha roubado enquanto bêbado e empenha-se em pagar velhas dívidas e honrar cheques sem fundo; faz reparações a pessoas  a quem  tenha ofendido e, em geral, realiza a melhor limpeza possível em seu passado. Não é incomum que padrinhos lhe emprestem dinheiro para ajudá-lo em seu reinício.

Esta catarse é considerada importante devido à compulsão que um sentimento de culpa exerce sobre a obsessão alcoólica. Como nada empurra mais um al-coólico para a garrafa do que ressentimentos pessoais, o novato faz uma lista de seus ressentimentos e decide não ser abalado por eles. A partir desse momento, ele está pronto para começar a trabalhar com outros alcoólicos na ativa. Pelo processo de extroversão que o trabalho envolve, ele consegue pensar menos em seus próprios problemas.

Quanto mais bebedores ele conseguir atrair para A.A., tanto maior será sua responsabilidade com relação ao grupo. Ele não pode embriagar-se agora sem afetar negativamente pessoas que provaram ser seus melhores amigos. Está começando a crescer emocionalmente e deixando de ser um dependente. Se tiver sido educado de acordo com uma religião, geralmente, mas não sempre, poderá tornar-se novamente um freqüentador regular.

De forma simultânea a seu processo de reconstrução, o alcoólico inicia o pro-cesso de reajuste em sua maneira de viver. Esposa ou marido de alcoólicos e também filhos tornam-se freqüentemente neuróticos pela exposição aos excessos alcoólicos que tenham ocorrido durante um longo período de tempo. Reeducação da família é uma parte essencial no programa de acompanhamento que foi delineado.

Alcoólicos Anônimos, que é uma síntese de velhas idéias, em vez de uma des-coberta nova, deve sua existência à colaboração de um corretor da Bolsa de New York e de um médico de Akron, Ohio. Ambos alcoólicos encontraram-se pela primeira vez a pouco menos de seis anos. Em trinta e cinco anos de bebedeiras periódicas, o Dr. Armstrong – para dar ao médico um nome fictício – bebeu a ponto de quase abandonar a prática da medicina. Armstrong tentou de tudo, para abandonar a bebida, inclusive o Grupo Oxford, sem conseguir nenhuma melhora. No Dia das Mães do ano de 1935, ele voltou para casa cambaleando, à moda típica dos bêbados, abraçado a um caríssimo vaso de plantas que depositou no colo de sua mulher. Então subiu as escadas e desmaiou.

Nesse mesmo instante, perambulando nervosamente pelo hall de um hotel de Akron, achava-se o corretor de New York, a quem chamaremos arbitrariamente de Griffith. Griffith estava com sérios problemas. Na tentativa de obter o con-trole acionário de uma firma e recuperar sua situação financeira, ele tinha vindo a Akron e estava empenhado numa disputa legal para conseguir procurações de acionistas dessa firma. Tinha perdido a disputa. Estava devendo a conta do hotel e quase absolutamente sem dinheiro. Griffith estava com vontade de beber.

Durante sua carreira em Wall Street, Griffith realizara negócios de grande vulto e prosperara, mas, por força de episódios desastrosos com bebida, tinha per-dido suas oportunidades mais importantes. Por um período de cinco meses, antes de viajar para Akron, tinha-se mantido abstêmio em relação a bebidas alcoólicas, graças aos ensinamentos do Grupo Oxford de New York. Fascinado com o problema do alcoolismo,  ele voltara muitas vezes, como visitante, a um hospital de desintoxicação no Central Park West, onde tinha estado como paciente e conversara com os doente internados. Ele não efetivou nenhuma recuperação, mas percebeu que, trabalhando com outros alcoólicos, conseguia afastar sua compulsão pelo álcool.

Sendo um estranho em Akron, Griffith não conhecia nenhum alcoólico com quem pudesse discutir abertamente seus problemas com o álcool. Uma lista telefônica com números de igrejas, pendurada no saguão em frente ao bar, deu-lhe uma idéia. Ele telefonou para um dos clérigos relacionados na lista e através dele entrou em contato com um membro local do Grupo Oxford. Essa pessoa era amiga do Dr. Armstrong e, assim sendo, pode realizar as respec-tivas apresentações durante o jantar. Desta maneira, o Dr. Armstrong tornou-se realmente o primeiro discípulo de Griffith. No começo ele estava muito trêmulo. Depois de algumas semanas de abstinência, foi para o oeste dos EUA participar de uma convenção médica e voltou numa bebedeira deplorável. Griffith, que tinha ficado em Akron para finalizar a resolução de impasses surgidos na disputa legal das procurações, colaborou com ele em seu retorno à sobriedade. Isto foi em 10 de junho de 1935. Os goles que o médico tomou da garrafa oferecida por Griffith naquele dia foram os últimos drinques em sua vida.

Os problemas da demanda judicial de Griffith estavam-se prolongando, man-tendo-o em Akron por seis meses. Ele mudou-se para a casa dos Armstrong e, juntos, em dupla, trabalharam outros alcoólicos. Antes de Griffith retornar a New York, ambos conseguiram converter mais duas pessoas em Akron. Nesse ínterim, ambos, Griffith e Armstrong, tinham-se desligado do Grupo Oxford, porque sentiram que seu evangelismo, por demais agressivo e outros de seus métodos eram empecilhos no trabalho com alcoólicos. Eles passaram a usar técnica própria, estritamente em bases de "pegue ou deixe" e assim a mantiveram.

O progresso foi lento. Após o regresso de Griffith para o Leste, o Dr. Armstrong e sua esposa, graduada em Wellesley, transformaram sua residência em um refúgio gratuito pra alcoólicos e num laboratório experimental para estudar o comportamento dos hóspedes. Um dos hóspedes que, sem que seus anfitriões soubessem, era maníaco depressivo e alcoólico, enfureceu-se uma noite, apos-sando-se de um facão de cozinha. Ele foi subjugado antes de ter podido esfaquear alguém. Depois de um ano e meio, um total de dez pessoas tinha respondido ao programa, permanecendo abstêmio em relação ao álcool. O restante das economias da família tinha-se esgotado com esse trabalho. A nova sobriedade do médico proporcionou-lhe reativar sua clínica, mas não o suficiente para arcar com as despesas extras. Os Armstrongs, apesar de tudo, prosseguiram por meio de recursos obtidos através de empréstimos. Griffith, cuja esposa tinha hábitos espartanos, transformou sua casa de Brooklin em uma réplica da casa de Akron. A Sra. Griffith, oriunda de uma tradicional família de Brooklin, empregou-se em uma loja de departamentos e nas horas vagas praticava enfermagem junto aos embriagados. Os Griffith também tomaram dinheiro emprestado, e Griffith conseguiu realizar pequenos negócios e ganhar algum dinheiro em transações nas corretoras de valores. Por volta da primavera de 1939, os Armstrongs e os Griffiths tinham, entre si, conduzido cerca de cem alcoólatras à sobriedade.

Em um livro publicado naquele tempo, os bebedores recuperados descreviam o programa de cura e relatavam suas histórias pessoais. O título era "Alcoólicos Anônimos". Foi adotado, como denominação para o próprio movimento, que até então não tinha nenhum nome. Quando o livro entrou em circulação, o movimento difundiu-se rapidamente.

Hoje o Dr. Armstrong ainda está lutando para reconstruir sua prática na profis-são médica. A tarefa é árdua. Ele está totalmente absorvido devido a suas contribuições ao movimento e ao tempo gratuito que devota aos alcoólicos. Sendo uma pessoa-chave no grupo, ele é incapaz de negar-se a atender as solicitações de ajuda que assoberbam seu consultório.

Griffith se encontra em muito pior situação. Nos últimos dois anos, ele e sua mulher não têm tido o que se pode considerar como um lar no sentido normal da palavra. Da mesma maneira como os primitivos cristãos, eles têm-se man-tido em permanente condição de mudança, encontrando abrigo nas casas de companheiros AAs e, eventualmente, vestindo roupas emprestadas.

Tendo iniciado um movimento da maior importância, ambos desejam afastar-se de seu centro nervoso, de modo a reajustar-se financeiramente. Eles consideram que da maneira como a coisa vai indo, o movimento é virtualmente auto-operacional e irá automultiplicar-se. Devido à ausência de personalidades de renome e ao fato de não existir nenhuma sociedade formal a ser promovida, eles não temem que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos possa degenerar-se em culto.

A natureza espontânea do movimento torna-se aparente, de acordo com as cartas arquivadas no escritório de New York. Diversas pessoas têm escrito, relatando que pararam de beber assim que terminaram a leitura do livro e fizeram de suas casas locais de reunião para pequenos núcleos locais. Até mesmo um grupo de grandes proporções, como o de Little Rock, iniciou-se desta forma. Um engenheiro civil de Akron e sua esposa, num gesto de gratidão por sua cura há quatro anos, vêm trazendo assiduamente alcoólicos para sua residência. De um total de trinta e cinco desses iniciantes, trinta e um se recuperaram.

Vinte visitantes de Cleveland absorveram a idéia em Akron e voltaram a seus locais de origem para iniciar um grupo próprio. De Cleveland, por diversos meios, o movimento se alastrou para Chicago, Detroit, St. Louis, Los Angeles, Indianópolis, Atlanta, San Francisco, Evansville e outras cidades. Um jornalista alcoólico de Cleveland que tinha um pulmão arruinado cirurgicamente mudou-se para Houston por questões de saúde. Ele conseguiu um emprego em um jornal de Houston e, através de uma série de artigos escritos para esse mesmo jornal, iniciou um grupo de A.A. que, no momento, conta com trinta e cinco membros. Um membro de Houston mudou-se para Miami e está agora se esforçando para atrair para a Irmandade alguns dos mais eminentes bebedores daquele balneário de inverno. Um vendedor-viajante de Cleveland é responsável pelo início de pequenos grupos em várias partes diferentes do país. Menos da metade dos membros de A.A. jamais viu Griffith ou o Dr. Armstrong.

Para um estranho, que fique intrigado, como muitos de nós ficamos, com o comportamento esquisito dos amigos bebedores-problema, os resultados que têm sido alcançados são surpreendentes. Tal fato é especialmente verdadeiro em relação aos casos mais desesperados, alguns dos quais estão abaixo descritos sob nomes fictícios.

"Sarah Martin era um produto da geração de F. Scott Fitzgerald. Nascida em berço de ouro, em uma cidade do Oeste, foi estudar em internatos no Leste e encontrou-se mudando para Paris. Depois de apresentada à sociedade de Paris, casou-se. A partir desse acontecimento, Sarah passava suas noites bebendo e dançando até o amanhecer. Ela era conhecida como uma moça que podia beber enormes quantidades. Seu marido era uma pessoa frágil e ela ficou desgostosa com ele. Rapidamente se divorciaram. Depois que a fortuna de seu pai chegou ao fim em 1929, Sarah arranjou um emprego em New York e conseguiu sustentar-se.

Em  1932, em busca de uma vida aventurosa, foi morar em Paris e montou um negócio próprio em que foi bem sucedida. Continuou a beber muito e ficava bêbada mais tempo do que o normal. Depois de uma longa bebedeira em 1933, foi-lhe informado que ela havia tentado atirar-se de uma janela. Em outra bebedeira ela de fato se atirou – ou caiu -, ela não se lembrava como foi, de uma janela do primeiro andar. Ela caiu com o rosto na calçada e ficou acamada por seis meses, sendo recuperada através de cirurgias dos ossos, recuperação dentária e cirurgia plástica.

Em 1936, Sarah Martin conclui que se mudasse de ambiente, retornando aos EUA, poderia beber normalmente. Essa crença infantil em mudança geográfica é uma ilusão clássica, que todo alcoólico vivencia durante algum tempo. Ela esteve bêbada durante toda a viagem de navio da volta. New York a amedrontou e ela bebeu para escapar ao medo. Seu dinheiro terminou e ela passou a pedir emprestado a amigos. Quando os amigos a ignoraram, ela passou a freqüentar continuamente os bares da Terceira Avenida, mendigando drinques de desconhecidos. Até este estágio ela havia diagnosticado seu problema como uma crise nervosa. Somente após internar-se em diversos sanatórios é que ela conscientizou-se, através de leitura, quer era uma alcoólica. Aconselhada por um médico da equipe de um sanatório, ela iniciou contato com um grupo de A.A. Hoje em dia, tem outro ótimo emprego e passa muitas de suas noites sentadA ao lado de mulheres bêbadas histéricas, para evitar que tentem jogar-se pela janelas. Em seus trinta e poucos anos, Sarah Martin é agora uma mulher atraente e serena. Os cirurgiões de Paris fizeram um belo trabalho nela."

"Watkins é um encarregado de despachos de mercadoria numa fábrica. Tendo sofrido um acidente de elevador que o aleijou, em 1927, foi licenciado com remuneração por sua companhia, que ficou muito grata por ele não a ter processado por danos físicos. Nada tendo a fazer durante a longa convalescença, Watkins passou a vagar pelos botequins escusos. Se anteriormente ele era um bebedor moderado, começou então a tomar bebedeiras que duravam meses. Em seguida, sua mobília foi penhorada e sua mulher o abandonou levando os filhos. Em onze anos, Watkins foi preso doze vezes e foi sentenciado oito vezes a trabalhos forçados. Uma vez, durante um acesso de delirium-tremens, ele circulou um boato entre os prisioneiros de que as autoridades responsáveis estavam envenenando a comida, de modo a reduzir a população carcerária e reduzir despesas. O resultado foi um motim no refeitório da prisão. Durante outro acesso de delirum-tremens, no qual ele imaginou que seu companheiro da cela de cima estava "tentando" derramar chumbo derretido nele, Watkins cortou seus próprios pulsos e garganta, com uma lâmina de barbear. Enquanto se recuperava em um hospital fora da prisão, com oitenta e seis pontos pelo corpo, ele jurou nunca mais beber. Estava bêbado antes que os últimos curativos tivessem sido removidos. Dois anos atrás, um antigo companheiro de bebedeiras levou-o ao A.A. e desde então ele nunca mais tocou em álcool. Sua mulher e seus filhos voltaram e sua casa tem mobília nova. Retornando ao trabalho, Watkins pagou a maior parcela dos 2.000 dólares de dívidas e pequenos roubos e agora está desejando adquirir um carro novo."

"Aos 22 anos de idade, Tracy, um filho precoce de pais bem sucedidos, era gerente de crédito de um banco de investimentos, cujo nome tornou-se um símbolo do turbulento mercado financeiro da época. Depois do colapso da bolsa, que arruinou seu banco, ele foi trabalhar em publicidade. Ocupou um posto que lhe rendia US$ 23,000 ao ano. Um dia, quando nasceu seu primeiro filho, Tracy ficou muito entusiasmado. Ao invés de comparecer a Boston, onde deveria fechar um grande contrato de publicidade, foi a uma farra e acabou acordando, assustado, em Chicago, deixando de realizar o contrato em Boston, por perder o prazo. Continuamente um bebedor forte, transformou-se num bêbado vagabundo. Ele tomava bebidas alcoólicas aquecidas numa latinha; ingeria tônicos para cabelos e mendigava de policiais que são sempre acessíveis quando se trata de até 10 centavos. Numa noite em que nevava, Tracy vendeu seus sapatos para tomar um drinque e calçou um par de galochas, que encontrara numa soleira de porta, forrando-as com jornal para manter seus pés aquecidos.

A partir daí começou a internar-se em sanatórios, mais para escapar do frio do que por qualquer outro motivo. Em uma dessas instituições, um médico conseguiu despertar seu interesse no programa de A.A. Como parte dele, Tracy, um católico, fez uma confissão total e voltou a freqüentar a igreja que tinha abandonado há muito tempo. Ele retornou ao álcool tendo algumas recaídas, mas depois de uma recaída em fevereiro de 1939, Tracy não bebeu mais. Desde então reiniciou sua carreira, atingindo novamente a faixa salarial de US$ 18,000 anuais, por seu trabalho na área de publicidade."

"Vitor Hugo teria se deliciado em conhecer Brewster, um aventureiro do tipo musculoso que escolheu viver da maneira mais difícil. Brewster foi lenhador, vaqueiro e aviador na guerra. Durante o pós-guerra ele incorporou-se à bebida e logo estava fazendo turismo na excursão dos sanatórios. Em um deles, depois de ouvir falar em cura por eletrochoques, ele subornou com cigarros um atendente negro encarregado do necrotério, para que o deixasse entrar todas as tardes para meditar ao lado de um cadáver. O plano funcionou muito bem até o dia em que um morto, por uma contorção facial adquirida ao morrer, parecia estar sorrindo. Brewster encontrou-se com A.A. em dezembro de 1938 e, depois de alcançar a abstinência, conseguiu um emprego de vendedor que envolvia longas caminhadas. Nesse intervalo, ele contraiu catarata nos dois olhos. Uma das cataratas foi removida, deixando-lhe apenas visão a distância com o auxílio de grossas lentes. A outra vista ele usava para visão próxima, mantendo-a dilatada através de pinga-gotas de uma solução que lhe permitia evitar ser atropelado no trafego de rua. Então ele foi acometido de uma trombose na perna e, com essas desvantagens, Brewster perambulou pelas ruas por seis meses antes de poder regularizar sua situação financeira. Hoje, com cinqüenta anos, embora ainda atribulado por essas deficiências físicas, ele está fazendo suas visitas a clientes e está ganhando cerca de 400 dólares por mês."

Para os Brewsters, os Martins, os Watkinses, os Tracys e outros alcoólicos recuperados, existe companhia adequada agora. Aquela que é disponível em qualquer lugar em que estejam. Nas grandes cidades, AAs se encontram  diariamente em restaurantes, para almoçar juntos. Os grupos de Cleveland realizam festas no ano-novo, e em outros feriados, em que litros e litros de café e refrigerantes são consumidos. Chicago mantém grupos funcionando nas sextas, nos sábados e domingos, alternadamente, nas zonas Norte, Oeste e Sul – de modo que nenhum alcoólico solitário necessite retornar à bebida durante os fins de semana por falta de companhia. Alguns jogam canastra, ou bridge e o ganhador de cada mão contribui para o pagamento das despesas da diversão. Outros ouvem rádio, dançam, comem ou apenas conversam. Todo alcoólico bêbado ou sóbrio gosta de conversar. Eles se encontram entre aqueles que mais amam a convivência social, fato este que pode ajudar a explicar por que eles tiveram que ser alcoólicos em primeiro lugar.

Nota: Embora um outro artigo de âmbito nacional tenha sido publicado anteriormente, o relato do "Saturday Evening Post", sobre um grupo de homens e mulheres que alcançaram a sobriedade através do A.A., foi, em grande parte, responsável pela onda de interesse que sedimentou a Irmandade em termos nacionais e internacionais.

 

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