Reflexão do dia 25 de abril
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Os Grupos Anônimos de Mútua Ajuda e o Século XXI

Pelo Dr. Eduardo Mascarenhas -  Psicanalista

Vejo com a maior simpatia instituições como os Alcoólicos Anônimos e outras que derivaram dele. Não só já prestaram, prestam e prestarão inestimáveis serviços, como ainda representam um modelo de instituição moderna e democrática.

Creio que, no século XXI, a humanidade recorrerá cada vez mais a instituições desse tipo. Será a sociedade tratando a própria sociedade. Sem nada de autoridades ou superiores, nada de médicos, psiquiatras, psicanalistas ou psicólogos. Apenas pessoas que viveram na carne certos problemas, aprenderam a controlá-los e estão aptas a auxiliar pessoas com problemas semelhantes.

Não se fala tanto de democracia, de organização da sociedade, de fortalecimento de suas instituições privadas? Que é preciso que a sociedade esteja livre da inevitável burocracia do Estado?

Pois bem, instituições como esses grupos anônimos de auxílio mútuo fortalecem a sociedade civil, tornando-a mais autônoma do jogo de influências políticas. É a própria sociedade se auto administrando, buscando nela própria a solução de seus problemas.

Aliás, essa é  uma boa maneira de evitar o empreguismo, a politicagem, os tráficos de influência, as mordomias, a corrupção, a arrogância dos burocratas. Chega de tecnocratas, de especialistas sabichões! Vamos devolver ao cidadão comum a plenitude de sua cidadania. Vamos extinguir os paternalismos e deixar as pessoas, elas próprias, inventarem os meios de enfrentar suas dificuldades. Acima de tudo, esse tipo de instituição não depende de nenhum Inamps da vida, está é alheia ao jugo estatal ou aos interesses de grandes empresas. Além disso, a mistura de classes sociais nesses grupos representa não só inestimável lição de vida como também de democracia. O convívio de pessoas diferentes resulta sempre numa experiência enriquecedora.

Os pobres, convivendo de perto com os ricos, poderão descobrir que estes não são feitos de outra argila e, a não ser pelos recursos exteriores, não são tão poderosos assim.

Já os ricos, convivendo tão de perto com os pobres, serão obrigados a enxergar mais além das aparências imediatas e descobrir que falta de escolaridade não é sinônimo de burrice, e que muitos analfabetos são capazes de rara sensibilidade e sabedoria. Não frequentaram os bancos acadêmicos, é verdade, mas cursaram a escola da vida.

Apesar de não possuírem qualquer coloração política, esses grupos anônimos de auxílio mútuo são, nesse sentido, profundamente políticos.

Não estou, com essas considerações, querendo diminuir a importância da medicina ou da psicanálise. Não se trata de opô-las aos grupos anônimos. Cada qual tem seu valor específico, sua eficácia específica e muitas vezes se complementam. Não há, por exemplo, nenhuma incompatibilidade entre frequentar um grupo anônimo e fazer psicanálise. Pelo contrário, pode haver até um ganho exponenciado, complementar. Por essas e outras, os grupos anônimos travam o melhor relacionamento possível com os profissionais da área de sa-úde. E - justiça seja feita - cada vez mais médicos e psicanalistas vêm mantendo excelentes relações com os grupos anônimos.

Claro que há exceções: alguns, por desconhecimento ou preconceito, já não a-gem assim; outros, por excessiva vaidade profissional, pela presunção de que tudo sabem e tudo podem.também não; isto sem contar, é óbvio, aqueles que hostilizam os grupos anônimos movidos por interesses inconfessáveis - temem perder clientes ou o monopólio de salvadores da humanidade adoecida ou aflita.

A meus pacientes de consultório que são alcoólatras ou padecem de alguma outra dependência química, não hesito um só momento em recomendar os grupos anônimos. Faço isso com a mesma naturalidade com que indico um gastroenterologista a um amigo que esteja com uma úlcera no estômago.

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